Amanhecendo
o sol nasce
para vê-la
carregando
a esperança
de um novo dia
e o vento da maresia soprado por ela
me arrepia
Sorriso entregue
beijo com gosto
salgado
a candura que encanta
guarda o seu
coração maltratado
Aos meus ouvidos,
o som do seu cantar
desperta
o meu lado mais sonhador
o reflexo azul
do espelho do seu olhar
confunde
os lapsos inusitados do meu amor
Seus olhos tristes
têm a ternura
dos mitos
das carícias
do seu lugar
o toque malicioso
da sua pele morena
esconde os mistérios no fundo
no fundo do seu mar
Anoitecendo
a lua chega
para brilhar
pelos seus
olhos da cor
da madrugada
e espero que o tempo não venha apagar
o poema escrito
em suas areias amadas
E através
da minhas mágoas
queria ser tudo o que ela quer
para me banhar
nas profundas águas
da praia deserta
daquela mulher
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Mais um copo cheio
Mais um copo cheio
já vem alguém
trazer uma lição
olha meu receio
ninguém sabe
do meu coração
Mais um copo cheio
conversa distraída
para me acalmar
trabalho de jardineiro
mas não sei a hora
que vou acordar
Mais um copo cheio
pego um cigarro
para me acompanhar
fagulha de centeio
a cerveja começa
a me alegrar
Mais um copo cheio
peço mais uma
pro dono do bar
aproveitando meu devaneio
ele volta dizendo
que já vai fechar
Mais um copo cheio
mais um dizendo
que já vai parar
um samba com recheio
não tenho mais ímpeto
para dançar
Mais um copo cheio
a essa hora
para que cantar?
nunca ninguém veio
agora bêbado
onde vou me segurar?
já vem alguém
trazer uma lição
olha meu receio
ninguém sabe
do meu coração
Mais um copo cheio
conversa distraída
para me acalmar
trabalho de jardineiro
mas não sei a hora
que vou acordar
Mais um copo cheio
pego um cigarro
para me acompanhar
fagulha de centeio
a cerveja começa
a me alegrar
Mais um copo cheio
peço mais uma
pro dono do bar
aproveitando meu devaneio
ele volta dizendo
que já vai fechar
Mais um copo cheio
mais um dizendo
que já vai parar
um samba com recheio
não tenho mais ímpeto
para dançar
Mais um copo cheio
a essa hora
para que cantar?
nunca ninguém veio
agora bêbado
onde vou me segurar?
sábado, 28 de abril de 2012
A separação do encontro
Não sabia que o cheiro de flores poderia chegar tão longe, e se espalhar por essas ruas largas e estreitas dessa cidade amargada por suas próprias entranhas, também não sabia se era o perfume dela, ou se estava sendo enganado mais uma vez por seu olfato, sentido um tanto safado, mas sensível aos aromas dos amores perdidos na multidão. Os ventos avançam sorrateiros, não disfarçam quando tocam o seu rosto com firmeza e seus olhos fecham e abrem no mesmo instante em que os pelos da minha nuca arrepiam pela sensação que passou. Os ventos seguem lúdicos, brincando de levantar as saias das mulheres petrificadas pela espera, e os homens aproveitam a situação para abraça-las na esperança nas coisas do amor, e a estação de trem se torna uma coadjuvante abandonada pelo tempo do agora. Nossos corpos vagarosos, receosos e espantados buscam ocupar o espaço vazio entre nós, tentando dizer sobre os desejos medrosos de corações enganados pelo destino. Nossos gestos desiludidos tentam se encontrar no instante que passou, segundos antes de se desencontrar pelos caminhos falhos da nossa jornada. Segurando os pesados trilhos da vida, nos cumprimentamos da mesma forma tímida da primeira vez que fomos apresentados, e na falta de palavras sinceras apenas sobram os olhares furtivos de quem espera que tudo termine rápido para, finalmente, seguir em frente. As marcas violentas cuidadosamente infligidas por nós, são cicatrizes visíveis a olho nu, e as mágoas ficam mais que qualquer outra coisa, para pisar nelas, lembrar delas, usufruir delas, e guardá-las com carinho para nos comprometermos a não viver mais isso, e saímos com ego renovado e mais sábios do que nunca. Então ela me pergunta: você vê o que eu vejo? O esforço de ver é a agonia dos meus dias. Ela aponta para os cantos obscuros da visão dizendo que há uma beleza escondida por lá. Esfrego o rosto, talvez seja cansaço ou sono, procuro com os olhos cada detalhe que tenha passado despercebido, mas não, não a nada lá, somente a velha realidade estampada na cara. O feroz barulho do trem chegando nos acorda no susto e esquecemos o assunto. A atenção de todos é desviada para o trem, imenso que causa espanto com seu corpo metálico, e uma algazarra toma forma quando ele retorna a sua estação de origem. Concentrados em nossos destinos e levados pela multidão insensível ao seu redor, embarcamos em diferentes vagões deixando a estação vazia, sem emoção e recordação do que aconteceu ali, pois só dizemos o que podemos admitir. Enquanto o trem começa a se deslocar, partindo para outro lugar, sentamos numa cadeira vaga, nos acomodamos e não resistimos em olhar pela janela, então o silêncio da viagem confessa a vontade gritante que temos de descer na próxima estação, para podemos compreender porque não demos um beijo de despedida.
Florear
Bate outra vez
outra vez, talvez, uma fantasia
fantasia para despertar os dias
dias que tanto queria
queria que você provasse o ato de ficar
ficar além do tempo
tempo de voltar
voltar para algum lugar
lugar incompreendido de corações perdidos
perdidos sonhos encontrados no olhar
olhar de qualquer canção de amor
amor, será que vai me deixar?
deixar comigo a sua tristeza
tristeza calada de sua flor
flor caída ao lado de outra flor
outra vez, talvez, uma fantasia
fantasia para despertar os dias
dias que tanto queria
queria que você provasse o ato de ficar
ficar além do tempo
tempo de voltar
voltar para algum lugar
lugar incompreendido de corações perdidos
perdidos sonhos encontrados no olhar
olhar de qualquer canção de amor
amor, será que vai me deixar?
deixar comigo a sua tristeza
tristeza calada de sua flor
flor caída ao lado de outra flor
Não sei do seu amor
Construí minhas estradas
para você chegar
e quem sabe se encantar
com carinho, seus olhos, eu olhava
com um sorriso, dos meus olhos, desviava
e eu sorria da timidez que vinha do nada
te recolhi no meu lugar
e cantei para te ninar
até que o sol pudesse raiar
e agora está tão longe
mesmo estando distante
meu desejo é o nosso instante
caminhos não cruzados
expuseram nossas dores
gosto amargo dos amores
mas um dia eu apareço
querendo um recomeço
nas estrelas te reconheço
em todas as vozes
escuto sua palavra
mesmo ainda calada
te procuro
sem querer
em todos os lugares
te reconheço
para te peder
em todos os olhares
e a agonia só vai acabar
quando você me procurar
para me encontrar
e o nosso amor transbordar
mas se não quiser voltar
não deixes de me avisar
para,enfim, eu poder chorar
para você chegar
e quem sabe se encantar
com carinho, seus olhos, eu olhava
com um sorriso, dos meus olhos, desviava
e eu sorria da timidez que vinha do nada
te recolhi no meu lugar
e cantei para te ninar
até que o sol pudesse raiar
e agora está tão longe
mesmo estando distante
meu desejo é o nosso instante
caminhos não cruzados
expuseram nossas dores
gosto amargo dos amores
mas um dia eu apareço
querendo um recomeço
nas estrelas te reconheço
em todas as vozes
escuto sua palavra
mesmo ainda calada
te procuro
sem querer
em todos os lugares
te reconheço
para te peder
em todos os olhares
e a agonia só vai acabar
quando você me procurar
para me encontrar
e o nosso amor transbordar
mas se não quiser voltar
não deixes de me avisar
para,enfim, eu poder chorar
quinta-feira, 1 de março de 2012
Nelson e Lígia
As rugas espalhadas pelo o seu rosto denunciavam os antigos desgostos de sua vida. Olhava-se no espelho do banheiro que refletia as lembranças da juventude que não volta mais e das tristezas levadas por sua mão calejada pelas cordas. Inseparável violão estava em um canto do pequeno quarto esperando para ser manejado. Escondia as suas lágrimas debaixo de um semblante alegre, pois a velhice já atacava o corpo e a beleza jovial que as mulheres desejam, e a saudade dos tempos de rapaz sempre lhe magoavam. Sua atenção voltava para o seu braço, uma tatuagem com o nome dela “Lígia”, com uma mão queria arrancá-la do seu braço, feri-la e causar um sangramento na pele e um sofrimento no coração, com a outra queria tocá-la, acariciá-la e se entregar ao acalanto que o nome dela trazia na memória. A tatuagem estava borrada, mas suas letras ainda eram legíveis. Penteava o cabelo virtuosamente, vestia sua roupa mais agradável, passava a colônia mais perfumada e se esforçava para ficar bonito outra vez. Com passos lentos, pegou em cima da mesa seu maço de cigarros, retirou um e pôs na boca, riscou o palito de fósforos e acendeu o cigarro sagrado, continuou sua caminhada para o quintal, sentou em sua cadeira de balanço e deu a primeira tragada daquele dia. Balançava no ritmo da inquietude do raiar de um novo dia.
Diziam que ele sempre se achava uma vítima da vida. Muito pelo o contrário, já havia sido julgado por ele mesmo e culpado era sentença marcada em seus devaneios, carregando toda a culpa que encontrava, sendo dele ou não. Quando tocava nessas divagações sobre sua vida, uma vontade controlada de chorar lhe aturdia os olhos, todo o corpo doía em sincronismo com as poucas batidas de um velho coração. Mais um trago do cigarro e tirava sarro do seu pequeno e pobre jardim, de poucas flores, quase vivas, espinhosas, quase mortas, desprotegidas, implorando o cuidado que ele não podia mais dar. Ria sem gargalhar. Balançava devagar, esperando o que já passou, passar. E as cinzas que se espalhavam eram tudo o que ficava, era o resto de tudo o que foi embora, que se acabou e o abandonou em seu ninho que carinhosamente foi construído para o amor. E das suas amargas lamúrias, reclamava sozinho de uma mulher sem alma, dizendo que tinha sido bom para ela, deu seu nome, passou fome, mas seu peito sempre sangrava na despedida que lhe entregava mais uma ferida. E não conseguia explicar de onde surgia a fé que lhe ajudava a suportar, apenas balançava e esperava uma visita triste da saudade para lhe fazer, enfim, chorar.
Cansou de balançar e se levantou sabendo que tinha certeza de uma coisa: precisava cantar. Foi encontrar com o seu antigo e gasto violão para juntos saírem por ai. E foi para a rua, com um cigarro aceso na mão e um sorriso apagado na boca. Do alto de uma mangueira, foi descendo a rua. Todas as pessoas o cumprimentavam e Nelson retribuía com o seu mesmo sorriso e um aceno de violão. Perguntavam-lhe para onde iria. Sempre respondia: para boemia. Havia marcado um encontro com seu amigo Guilherme que queria lhe mostrar um samba novo, motivo mais do que natural para se tomar umas cervejas. O lugar marcado era o de sempre, Praça Tiradentes, e Nelson já chegou pedindo uma gelada para o calor e para alma. Repousou o violão em sua perna e começou a dedilhar algumas notas para que seus dedos se acostumassem com as cordas. Cerveja na mesa e copo cheio. Tocava a música de sua desgraça, melodia saboreada pela sua dor, sentia pelo sol não poder viver perto da lua, e no final, o último verso terminava com ninguém. Guilherme deu um tapa nas costas do amigo e o cumprimentou, chegando no término da primeira cerveja. Rapidamente apresentou-lhe ao novo samba que tinha composto. Começaram de forma lenta, trocando ideias, porém logo o samba já estava pronto e os dois cantavam como se já conhecessem aquelas palavras desde sempre. Quando vinha uma cerveja, um samba era cantado. Todos eram sambas de amores perdidos, mas que pela transformação de suas histórias em poesias, nunca mais foram esquecidos.
Lígia, com seus passos desconcertados, e sua beleza levada pela impureza das ruas, passava na hora de mais um samba falando da dor, e como também a conhecia muito bem, parou e cumprimentou Nelson e Guilherme, no qual a convidaram para se sentar e tomar uma cerveja com eles. Ela aceitou de bom grado e eles continuaram a lembrar de sambas antigos e a mostrar para os seus ouvidos, e para os dos que passavam, palavras que já foram vividas. De vez quando paravam e conversavam um pouco, mas logo que alguém lembrava de outro samba, não hesitavam em cantá-lo. E foi assim até a noite, quando Guilherme se despediu dos dois e foi embora já muito bêbado. Nelson e Lígia acabaram ficando mais um pouco, apenas conversando, para que o violão pudesse descansar de uma vez. Depois, caminharam pela praça, enquanto falavam da noite de hoje e do dia de amanhã. E o desejo balançava seus corações atordoados, sem rumo, desesperados pelo acalanto que não tinham, mas que queriam um do outro. Sentaram em um banco da praça, pelo alto nível de álcool em seus sangues, sem mais demora, e sem um beijo de boa noite, adormeceram ali mesmo, se amando silenciosamente até que se chamassem saudade.
Diziam que ele sempre se achava uma vítima da vida. Muito pelo o contrário, já havia sido julgado por ele mesmo e culpado era sentença marcada em seus devaneios, carregando toda a culpa que encontrava, sendo dele ou não. Quando tocava nessas divagações sobre sua vida, uma vontade controlada de chorar lhe aturdia os olhos, todo o corpo doía em sincronismo com as poucas batidas de um velho coração. Mais um trago do cigarro e tirava sarro do seu pequeno e pobre jardim, de poucas flores, quase vivas, espinhosas, quase mortas, desprotegidas, implorando o cuidado que ele não podia mais dar. Ria sem gargalhar. Balançava devagar, esperando o que já passou, passar. E as cinzas que se espalhavam eram tudo o que ficava, era o resto de tudo o que foi embora, que se acabou e o abandonou em seu ninho que carinhosamente foi construído para o amor. E das suas amargas lamúrias, reclamava sozinho de uma mulher sem alma, dizendo que tinha sido bom para ela, deu seu nome, passou fome, mas seu peito sempre sangrava na despedida que lhe entregava mais uma ferida. E não conseguia explicar de onde surgia a fé que lhe ajudava a suportar, apenas balançava e esperava uma visita triste da saudade para lhe fazer, enfim, chorar.
Cansou de balançar e se levantou sabendo que tinha certeza de uma coisa: precisava cantar. Foi encontrar com o seu antigo e gasto violão para juntos saírem por ai. E foi para a rua, com um cigarro aceso na mão e um sorriso apagado na boca. Do alto de uma mangueira, foi descendo a rua. Todas as pessoas o cumprimentavam e Nelson retribuía com o seu mesmo sorriso e um aceno de violão. Perguntavam-lhe para onde iria. Sempre respondia: para boemia. Havia marcado um encontro com seu amigo Guilherme que queria lhe mostrar um samba novo, motivo mais do que natural para se tomar umas cervejas. O lugar marcado era o de sempre, Praça Tiradentes, e Nelson já chegou pedindo uma gelada para o calor e para alma. Repousou o violão em sua perna e começou a dedilhar algumas notas para que seus dedos se acostumassem com as cordas. Cerveja na mesa e copo cheio. Tocava a música de sua desgraça, melodia saboreada pela sua dor, sentia pelo sol não poder viver perto da lua, e no final, o último verso terminava com ninguém. Guilherme deu um tapa nas costas do amigo e o cumprimentou, chegando no término da primeira cerveja. Rapidamente apresentou-lhe ao novo samba que tinha composto. Começaram de forma lenta, trocando ideias, porém logo o samba já estava pronto e os dois cantavam como se já conhecessem aquelas palavras desde sempre. Quando vinha uma cerveja, um samba era cantado. Todos eram sambas de amores perdidos, mas que pela transformação de suas histórias em poesias, nunca mais foram esquecidos.
Lígia, com seus passos desconcertados, e sua beleza levada pela impureza das ruas, passava na hora de mais um samba falando da dor, e como também a conhecia muito bem, parou e cumprimentou Nelson e Guilherme, no qual a convidaram para se sentar e tomar uma cerveja com eles. Ela aceitou de bom grado e eles continuaram a lembrar de sambas antigos e a mostrar para os seus ouvidos, e para os dos que passavam, palavras que já foram vividas. De vez quando paravam e conversavam um pouco, mas logo que alguém lembrava de outro samba, não hesitavam em cantá-lo. E foi assim até a noite, quando Guilherme se despediu dos dois e foi embora já muito bêbado. Nelson e Lígia acabaram ficando mais um pouco, apenas conversando, para que o violão pudesse descansar de uma vez. Depois, caminharam pela praça, enquanto falavam da noite de hoje e do dia de amanhã. E o desejo balançava seus corações atordoados, sem rumo, desesperados pelo acalanto que não tinham, mas que queriam um do outro. Sentaram em um banco da praça, pelo alto nível de álcool em seus sangues, sem mais demora, e sem um beijo de boa noite, adormeceram ali mesmo, se amando silenciosamente até que se chamassem saudade.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Quando ela chegou com o amor
quado ela chegou com o amor
foi mais um descuido do meu coração
embriaguez pelo perfume sutil de sua flor
e dos seus olhos negros vi nascer a paixão
acariciei os caminhos ondulados dos seus cabelos
toquei com carinho as marcas do seu macio rosto
admirei seus olhos fechados enquanto beijava seus lábios carnudos
arranquei o sofrer do cotidiano quando ofereci o meu acalanto
e se entregando do seu jeito para mim
despertou a poesia do seu sono profundo
me entrelaçou na ternura que dizia sim
do quarto escuro e solitário surgiu o nosso mundo
nossos rios corriam para desaguar no misterioso mar
mesmo conhecendo cada pedaço da dor, não negamos mais
os descontrolados e tortos passos dos atos de amar
e seu navio naufragou quando encontrou meu cais
anoitecemos, ficando lado a lado
esquecendo o brilho intenso da lua
remexendo tudo o que estava guardado
não escutamos o som que vinha da rua
acordamos apenas para viver
o que queria muito acontecer
e nosso silêncio disse naquela manhã
que a despedida não fazia parte do amanhã
foi mais um descuido do meu coração
embriaguez pelo perfume sutil de sua flor
e dos seus olhos negros vi nascer a paixão
acariciei os caminhos ondulados dos seus cabelos
toquei com carinho as marcas do seu macio rosto
admirei seus olhos fechados enquanto beijava seus lábios carnudos
arranquei o sofrer do cotidiano quando ofereci o meu acalanto
e se entregando do seu jeito para mim
despertou a poesia do seu sono profundo
me entrelaçou na ternura que dizia sim
do quarto escuro e solitário surgiu o nosso mundo
nossos rios corriam para desaguar no misterioso mar
mesmo conhecendo cada pedaço da dor, não negamos mais
os descontrolados e tortos passos dos atos de amar
e seu navio naufragou quando encontrou meu cais
anoitecemos, ficando lado a lado
esquecendo o brilho intenso da lua
remexendo tudo o que estava guardado
não escutamos o som que vinha da rua
acordamos apenas para viver
o que queria muito acontecer
e nosso silêncio disse naquela manhã
que a despedida não fazia parte do amanhã
A traição de um beijo
aqui fico esperando os seus passos
e da sua boca algumas perdidas palavras
mas tremo por sentir a distância dos seus braços
e o eco longínquo de nossas diferentes estradas
brindo com o copo na mão
para arrancar toda a emoção
marcada no meu peito com o ferro e fogo do desejo
da destruidora e traidora comoção daquele beijo
beijo que sempre foi meu
mas deste para outra mulher
não me digas que não aconteceu
de você, nada pode se querer
grito para o mundo que não posso te encontrar
confuso coração permace sem luz
será que vou me condenar se um dia te perdoar?
carrego comingo essa pesada cruz
bebo para tudo isso esquecer
as lembranças que me levam a você
mas apenas consigo endurecer
pelo exato momento que me fez padecer
rompi com as longas pontes dessa ferida
de um amor carregado por imensas correntes
maltrato as pétalas daquela orgulhosa margarida
quando não me tocam com gestos indecentes
da sua partida, um copo vazio
não sei se dá desgrança ou da graça que rio
mas você sempre estará aqui no meu agouro
enquanto eu sentir a falta do teu choro
e da sua boca algumas perdidas palavras
mas tremo por sentir a distância dos seus braços
e o eco longínquo de nossas diferentes estradas
brindo com o copo na mão
para arrancar toda a emoção
marcada no meu peito com o ferro e fogo do desejo
da destruidora e traidora comoção daquele beijo
beijo que sempre foi meu
mas deste para outra mulher
não me digas que não aconteceu
de você, nada pode se querer
grito para o mundo que não posso te encontrar
confuso coração permace sem luz
será que vou me condenar se um dia te perdoar?
carrego comingo essa pesada cruz
bebo para tudo isso esquecer
as lembranças que me levam a você
mas apenas consigo endurecer
pelo exato momento que me fez padecer
rompi com as longas pontes dessa ferida
de um amor carregado por imensas correntes
maltrato as pétalas daquela orgulhosa margarida
quando não me tocam com gestos indecentes
da sua partida, um copo vazio
não sei se dá desgrança ou da graça que rio
mas você sempre estará aqui no meu agouro
enquanto eu sentir a falta do teu choro
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Juras
são essas eternas juras de amor
lamentos de seu sorriso a despertar
canções compostas por um sonhador
que diz
palavras escritas com pó de giz
e você
querendo todas elas
cores de nossa aquarela
querendo qualquer uma
para não sobrar nenhuma
para as feridas das juras de dor
são essas eternas juras de amor
momentos de uma boca a te beijar
emoções perdidas de um cantor
que canta
a vida que ainda encanta
e você
querendo toda essa confusão
para fugir da sua solidão
querendo apenas a rendição
das juras de um magoado coração
lamentos de seu sorriso a despertar
canções compostas por um sonhador
que diz
palavras escritas com pó de giz
e você
querendo todas elas
cores de nossa aquarela
querendo qualquer uma
para não sobrar nenhuma
para as feridas das juras de dor
são essas eternas juras de amor
momentos de uma boca a te beijar
emoções perdidas de um cantor
que canta
a vida que ainda encanta
e você
querendo toda essa confusão
para fugir da sua solidão
querendo apenas a rendição
das juras de um magoado coração
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Minha querida
Sonhe com a vida, querida
com a minha flor caída entre seus dentes
um suspiro doce que ainda sentes
que o pecado dos nossos incostantes caminhos
vive no perdão dos nossos indecentes carinhos
Fantasie com a vida, querida
com minhas palavras amassadas e jogadas
molhadas no mar onde flutua a nossa jangada
que uma pitada de ternura dá sabor aos nossos atos
na tempestade agonizante e nua da vida dos astros
com a minha flor caída entre seus dentes
um suspiro doce que ainda sentes
que o pecado dos nossos incostantes caminhos
vive no perdão dos nossos indecentes carinhos
Fantasie com a vida, querida
com minhas palavras amassadas e jogadas
molhadas no mar onde flutua a nossa jangada
que uma pitada de ternura dá sabor aos nossos atos
na tempestade agonizante e nua da vida dos astros
Beijo da mulher aranha
um beijo da mulher aranha
teia aprisionando perdidas emoções
arranca, espanca, arranha
armadilha para desavisados corações
teia aprisionando perdidas emoções
arranca, espanca, arranha
armadilha para desavisados corações
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Sombras de um artista
revistas recortadas, palavras do poeta
não agradam aos ouvidos da prostituta
e o louco sobe o muro do hospício
e se equilibra com apenas uma mão
deus e o diabo disputam a dançarina
para ver quem vai tirar sua calcinha
e do lado de fora do céu
dois amantes ainda tentam despertar
solidão a maltratar os olhos
dessas meninas de convento
que glorificam um homem só
implorando o seu perdão
o noivo na ponte querendo ver anjos
ele quer voar para deixar o mundo
depois de ter sido deixado no altar
pela mulher que nunca amou
o enforcado está sobre os olhos de todos
condenado pela nossa comunidade
escorre lágrimas de arrependimento
por não ter dado um último beijo nela
permanece o vazio nesse imenso jardim
nunca encontrei com a jasmim
se eu chamá-la de flor
será que ela aparecerá na minha ilusão?
Vi tudo o que não devia
Escutei tudo o que não devia
Disse tudo o que não devia
Não devia... o que não devia?
são sombras desfiguradas do artista
transformadas no seu mundo de autista
esperando ansiosas e tímidas por alguém
a dizer que sente o que não devia também
não agradam aos ouvidos da prostituta
e o louco sobe o muro do hospício
e se equilibra com apenas uma mão
deus e o diabo disputam a dançarina
para ver quem vai tirar sua calcinha
e do lado de fora do céu
dois amantes ainda tentam despertar
solidão a maltratar os olhos
dessas meninas de convento
que glorificam um homem só
implorando o seu perdão
o noivo na ponte querendo ver anjos
ele quer voar para deixar o mundo
depois de ter sido deixado no altar
pela mulher que nunca amou
o enforcado está sobre os olhos de todos
condenado pela nossa comunidade
escorre lágrimas de arrependimento
por não ter dado um último beijo nela
permanece o vazio nesse imenso jardim
nunca encontrei com a jasmim
se eu chamá-la de flor
será que ela aparecerá na minha ilusão?
Vi tudo o que não devia
Escutei tudo o que não devia
Disse tudo o que não devia
Não devia... o que não devia?
são sombras desfiguradas do artista
transformadas no seu mundo de autista
esperando ansiosas e tímidas por alguém
a dizer que sente o que não devia também
Disritmia de um coração
Isso são horas, coração? A noite se apresenta com seu espetáculo de escuridão para me chamar e acender a sua chama, coração. Eu apenas queria dormir um sono pesado, sonhar com tudo que não está aqui, e não acordar tão cedo de lá. Folgado coração, passeia a vontade pela minha casa aberta aos ventos de outros lugares. Vagueio pela minha moradia sem rumo, tentando acalmar esse palpitante coração. Ele veio para me atormentar e não me deixar fugir para cama, mas eu insisto mesmo assim e deito. Fecho os olhos para esquecer, mas o agitado coração, mais uma batida, dentro desse peito apertado quer aparecer, enquanto isso, rolo de um lado para outro, querendo encontrar uma posição de vantagem, porém ele já sabe os meus movimentos e minhas estratégias para acalmá-lo, e não hesitante me joga para fora da cama e abro os olhos furiosos de minha rendição. Para que mais uma batida? Não vai me deixar descansar? Para que mais uma dança com a esperança, coração?
Aos poucos, ele vai destruindo o meu senso de razão, e caio nos seus diferentes sentidos contraditórios, não sei se é o que ele quer, ou se é o que eu quero, mais uma batida, desfigurado, descontrolado, coração. Inquieto e desnorteado, caminho para a janela e observo a noite que novamente clama pela minha presença. Apelo para um cigarro, como se ele fosse resolver todos os meus problemas, e digo, por favor, pare coração. Minhas súplicas são cortadas por mais algumas batidas, que lentamente vão me deixando louco. Coração, o que quer de mim? Já não posso te dar mais nada. Só quero a paz que você não traz. Não desiste de me conquistar com seus encantos de um olhar transtornado sobre a vida. Coração, coração, veja as coisas como elas são. Ele vem me tomar pela mão que treme sem parar, sacudindo meu corpo petrificado pela noção de não querer ir com ele, com mais uma batida dissimulada, preso ao caos, vou definhando e ficando a mercê da sua própria mão, quando finalmente não existe mais cigarro.
Olha... uma cigana desconstruindo o seu acampamento para satisfazer sua característica nômade. Vá coração! Vá embora com ela! Vá com ela sumir por esse mundo. O que fazer de um coração em transformação? Olha... as crianças dando gargalhadas das brincadeiras de um torto e manco palhaço que está com rosto marcado e pintado para divertir. Vá coração! Vá com ele coração! Vá buscar alguns sorrisos dessas bocas sérias. O que fazer de um coração de circo? Olha... os olhos cheio de clareza daquela mulher apaixonada e a delicadeza de seu sorriso cheio de água correndo mágoas. Vá com ela coração! Vá se entregar a outro coração. O que fazer de um coração de paixão? Será que ninguém quer saber os segredos entre as batidas de seu coração? Será que ninguém quer entender as disritmias de seu coração? Ninguém lhe quer, coração, nem mesmo o seu dono lhe quer, coração.
Está na hora de parar, coração. Chegou a hora de escolher um único horizonte e seguir apenas nessa direção, será melhor para mim e para você, coração. Não desperdice essa chance de entrar nos eixos do mundo, para ingressar nas engrenagens da mesma máquina que construiu todas as nossas peças, não se pode enganar por tanto tempo a si mesmo, coração. Triste coração solitário que quer ser livre da desgraça, cachaça aos goles da agonia de um desesperado coração. Sem vergonha, coração. Veste a sua fantasia mais pesada para brincar em um carnaval que já acabou. Tolo coração. Sobe as cortinas do seu palco e se apresenta para o público, cena sem interação, ator falso, personagem recluso, de uma trágica comédia que ele não se importa de representar. Está na hora de parar, coração, eu te aviso como amigo.
Olha... os passos de um moribundo desengonçado, bêbado de suas andanças cansadas. Vá com ele coração! Vá andar bêbado de sua crença! O que fazer de um coração sem chão? Olha... as palavras que voam por trás dos prédios de um poeta sem perna. Vá com ele coração! Vá dizer palavras que ficarão! O que fazer de um coração amordaçado? Olha... aquela dançarina que se machucou, e agora chora se apertando contra a parede. Vá com ela coração! Vá dançar com as lágrimas! O que fazer de um coração em pranto? Será que esses corações batem no mesmo ritmo que seu coração? Será que eles escutam as batidas de seus corações? Será, coração?
Ilusão... velha conhecida do coração. Chora coração, disfarça coração. Vou te proteger quando você encontrar com ela, te abraçando até explodir em mil cartas marcadas. Está na hora de parar coração. Está na hora de ir embora, me escute só por um momento, é para o seu próprio bem. Aceite meu conselho, pois lhe dou por pura convicção, e não preciso nem de sua gratidão. Errado coração. Não consegue perceber o caminho certo e sempre escorrega para o outro lado. Natural coração. Não encontra a raiz de sua árvore, pois já alcançou os galhos mais altos. Teimoso coração. Tapa os ouvidos, a boca e os olhos, porém escuta as canções, vê o espelho e fala sobre suas emoções. Porque, coração? Porque sempre que tento te deixar pelo caminho, você não me abandona e ainda fica para me mostrar alguma coisa a mais com mais uma batida parecida com o amor?
Aos poucos, ele vai destruindo o meu senso de razão, e caio nos seus diferentes sentidos contraditórios, não sei se é o que ele quer, ou se é o que eu quero, mais uma batida, desfigurado, descontrolado, coração. Inquieto e desnorteado, caminho para a janela e observo a noite que novamente clama pela minha presença. Apelo para um cigarro, como se ele fosse resolver todos os meus problemas, e digo, por favor, pare coração. Minhas súplicas são cortadas por mais algumas batidas, que lentamente vão me deixando louco. Coração, o que quer de mim? Já não posso te dar mais nada. Só quero a paz que você não traz. Não desiste de me conquistar com seus encantos de um olhar transtornado sobre a vida. Coração, coração, veja as coisas como elas são. Ele vem me tomar pela mão que treme sem parar, sacudindo meu corpo petrificado pela noção de não querer ir com ele, com mais uma batida dissimulada, preso ao caos, vou definhando e ficando a mercê da sua própria mão, quando finalmente não existe mais cigarro.
Olha... uma cigana desconstruindo o seu acampamento para satisfazer sua característica nômade. Vá coração! Vá embora com ela! Vá com ela sumir por esse mundo. O que fazer de um coração em transformação? Olha... as crianças dando gargalhadas das brincadeiras de um torto e manco palhaço que está com rosto marcado e pintado para divertir. Vá coração! Vá com ele coração! Vá buscar alguns sorrisos dessas bocas sérias. O que fazer de um coração de circo? Olha... os olhos cheio de clareza daquela mulher apaixonada e a delicadeza de seu sorriso cheio de água correndo mágoas. Vá com ela coração! Vá se entregar a outro coração. O que fazer de um coração de paixão? Será que ninguém quer saber os segredos entre as batidas de seu coração? Será que ninguém quer entender as disritmias de seu coração? Ninguém lhe quer, coração, nem mesmo o seu dono lhe quer, coração.
Está na hora de parar, coração. Chegou a hora de escolher um único horizonte e seguir apenas nessa direção, será melhor para mim e para você, coração. Não desperdice essa chance de entrar nos eixos do mundo, para ingressar nas engrenagens da mesma máquina que construiu todas as nossas peças, não se pode enganar por tanto tempo a si mesmo, coração. Triste coração solitário que quer ser livre da desgraça, cachaça aos goles da agonia de um desesperado coração. Sem vergonha, coração. Veste a sua fantasia mais pesada para brincar em um carnaval que já acabou. Tolo coração. Sobe as cortinas do seu palco e se apresenta para o público, cena sem interação, ator falso, personagem recluso, de uma trágica comédia que ele não se importa de representar. Está na hora de parar, coração, eu te aviso como amigo.
Olha... os passos de um moribundo desengonçado, bêbado de suas andanças cansadas. Vá com ele coração! Vá andar bêbado de sua crença! O que fazer de um coração sem chão? Olha... as palavras que voam por trás dos prédios de um poeta sem perna. Vá com ele coração! Vá dizer palavras que ficarão! O que fazer de um coração amordaçado? Olha... aquela dançarina que se machucou, e agora chora se apertando contra a parede. Vá com ela coração! Vá dançar com as lágrimas! O que fazer de um coração em pranto? Será que esses corações batem no mesmo ritmo que seu coração? Será que eles escutam as batidas de seus corações? Será, coração?
Ilusão... velha conhecida do coração. Chora coração, disfarça coração. Vou te proteger quando você encontrar com ela, te abraçando até explodir em mil cartas marcadas. Está na hora de parar coração. Está na hora de ir embora, me escute só por um momento, é para o seu próprio bem. Aceite meu conselho, pois lhe dou por pura convicção, e não preciso nem de sua gratidão. Errado coração. Não consegue perceber o caminho certo e sempre escorrega para o outro lado. Natural coração. Não encontra a raiz de sua árvore, pois já alcançou os galhos mais altos. Teimoso coração. Tapa os ouvidos, a boca e os olhos, porém escuta as canções, vê o espelho e fala sobre suas emoções. Porque, coração? Porque sempre que tento te deixar pelo caminho, você não me abandona e ainda fica para me mostrar alguma coisa a mais com mais uma batida parecida com o amor?
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Choro
nosso choro abalado
sentido e calado
é choro que se chora só
é choro do que se vê
que tudo se foi
e nada voltou
nosso choro cansado
arrastado e suado
é choro de quem deu um nó
é choro de cada mulher
que partiu
e me deixou
Esse choro é chorinho
sem nenhum carinho
de alguma rosa a chegar
para enfim me consolar
e quem chora esse choro
molhado dos perigos da dor
quer apenas o acalanto do amor
de quem nunca passou
sentido e calado
é choro que se chora só
é choro do que se vê
que tudo se foi
e nada voltou
nosso choro cansado
arrastado e suado
é choro de quem deu um nó
é choro de cada mulher
que partiu
e me deixou
Esse choro é chorinho
sem nenhum carinho
de alguma rosa a chegar
para enfim me consolar
e quem chora esse choro
molhado dos perigos da dor
quer apenas o acalanto do amor
de quem nunca passou
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
O leve peso da vida
Eu apenas quero que você me diga como ser feliz. Nada acontece como você diz. Parece que o tempo está passando, talvez já passou, e agora? Queria que alguém me olhasse e não revirasse os olhos em outras direções diferentes e que meus olhos transbordassem a paixão e o desejo do meu corpo sensível a contatos extremos. Será que alguém vai querer tocar na minha mão aquecida cuidadosamente no bolso do meu casaco? Será que alguém vai notar a minha existência se extinguindo na lua cheia que desaparece entre as nuvens esquecidas da noite? Não queria palavras fingidas, porém tampouco atrevidas, dirigidas a mim pela indiferença de conhecer o mundo vasto por trás delas. Acho que já não consigo dizer sobre o desinteresse das expressões presas por rostos que não amanhecem comigo. Já não consigo viver o que não vai acontecer. As músicas são feitas para você, e não para mim. A vida é muito pesada para se viver sozinho. Diga como amenizar a tristeza cravada pelo ar, quando vejo com fulgor a beleza do mar? É preciso uma imensa força estranha para derrubar ventos reclusos, melancólicos por natureza, retraídos pelo seu penar, e me pergunto se alguém também conhece essa força através das próprias forças, fossas nos lugares inóspitos, escuras, ecos de um canto solitário. Você tem o encanto surpreendente que tanto eu busco nas pequenas coisas que você faz, mas não consigo te acompanhar, nem mesmo chegar até onde você quer me conduzir, através de seus belos acasos de um dia qualquer. A minha memória é revirada para trazer alguma alegria de um tempo de outrora, porém não vejo ninguém que você prometeu trazer para mim, para me fazer esquecer do próprio tempo, do meu próprio ser. Estou cansado de mim. Por todos os lados que eu perceba a vida, só vejo a mim. E fico assim, sonhando que eu sou feliz por sua causa, sonhando que acredito em tudo que você diz, sonhando que você um dia vai voltar mesmo que nunca tenha ido, sonhando que você vai me fazer mudar de vida com a sua. E nessa hora que sinto mais falta de alguma coisa que ainda não sei, alguma coisa que eu deixei, alguma coisa que eu não permiti, algo que minha compreensão inocente quer.
Tenho reunidas comigo várias frases de efeito, daquelas que as pessoas colocam na vitrine de suas vidas, mas nenhuma delas tem algum efeito sobre mim. A vida ri de nós. Nessa guerra, corremos na mesma direção, esmagando ossos quebrados, procurando um abrigo nuclear, e esperamos pacientes o silêncio ensurdecedor de uma bomba que torcemos que caía sobre nossos espíritos frágeis. Porque me fizeste ser traído por tudo o que vivi? É triste perceber a miséria dos nossos olhos mortos pelo medo de poder ver o que não era visto antes. E que tem coragem de dizer? Toda a poesia é para você, e não para mim. A vida é muito leve para se agarrar. Queria sentir suas nuances e balanços que você mostra com sua forma tímida e se desmancha despedaçada sobre o meu solo. O sofrimento tortura nossas pequenas esperanças, e você gosta de me enganar com seu jeito de quem veio para cuidar. Assim, eu durmo querendo morrer, mas acordo querendo viver. E a vida também se desespera, arranca cabelos, caí nos seus desenganos, enlouquece com o doce sabor de seu sorriso querendo ser reconhecido por quem também tem a vida, ainda desconhecida, e com uma vontade de se conhecer por um raio de sol que se esconde por trás das nuvens brancas com formas incompreensíveis a olho nu. E se alguém se aproximar, será que não veio para machucar? Não adianta lutar, é uma batalha perdida para si mesmo. Eu só queria uma cor, qualquer uma, desbotada, porém radiante na sua luz refletida pelo lago parado e calmo, de águas já explorados por outros corações. E vivo (vivendo) preso pela presença de alguém traduzir o sofrimento com gestos delicados, para a vida se libertar em pequenas gotas de chuva, que molham a tristeza de alguém que ofereça um pouco de sua vida carregada de nuvens cheias de lágrimas querendo cair sobre essa terra ainda viva.
Tenho reunidas comigo várias frases de efeito, daquelas que as pessoas colocam na vitrine de suas vidas, mas nenhuma delas tem algum efeito sobre mim. A vida ri de nós. Nessa guerra, corremos na mesma direção, esmagando ossos quebrados, procurando um abrigo nuclear, e esperamos pacientes o silêncio ensurdecedor de uma bomba que torcemos que caía sobre nossos espíritos frágeis. Porque me fizeste ser traído por tudo o que vivi? É triste perceber a miséria dos nossos olhos mortos pelo medo de poder ver o que não era visto antes. E que tem coragem de dizer? Toda a poesia é para você, e não para mim. A vida é muito leve para se agarrar. Queria sentir suas nuances e balanços que você mostra com sua forma tímida e se desmancha despedaçada sobre o meu solo. O sofrimento tortura nossas pequenas esperanças, e você gosta de me enganar com seu jeito de quem veio para cuidar. Assim, eu durmo querendo morrer, mas acordo querendo viver. E a vida também se desespera, arranca cabelos, caí nos seus desenganos, enlouquece com o doce sabor de seu sorriso querendo ser reconhecido por quem também tem a vida, ainda desconhecida, e com uma vontade de se conhecer por um raio de sol que se esconde por trás das nuvens brancas com formas incompreensíveis a olho nu. E se alguém se aproximar, será que não veio para machucar? Não adianta lutar, é uma batalha perdida para si mesmo. Eu só queria uma cor, qualquer uma, desbotada, porém radiante na sua luz refletida pelo lago parado e calmo, de águas já explorados por outros corações. E vivo (vivendo) preso pela presença de alguém traduzir o sofrimento com gestos delicados, para a vida se libertar em pequenas gotas de chuva, que molham a tristeza de alguém que ofereça um pouco de sua vida carregada de nuvens cheias de lágrimas querendo cair sobre essa terra ainda viva.
sábado, 3 de setembro de 2011
Apenas uma vez
Será que procurou nos meus olhos
alguma lágrima para chorar
e na minha boca
algum sorriso para sorrir?
Apenas uma vez,
ela caía
Será que encontrou no meu corpo
um lugar para ficar
e no meu rosto se aproximado ao seu
lado a lado?
Apenas uma vez,
ela sucumbia
Será que se segurou nos meus cabelos
com a força que não tinha
e no meu pedaço de amor
que se perdeu entre suas coxas?
Apenas uma vez,
ela ardia
Será que se agarrou a felicidade
no despertar de sua primavera
e enfrentou a tristeza
escondida nos cantos do seu quarto?
Apenas uma vez,
ela morria
Será que sonhou sozinha
quando ninguém mais vinha
e criava coragem
para mais uma vez pedir?
Por favor,
mais uma vez,
ela queria
alguma lágrima para chorar
e na minha boca
algum sorriso para sorrir?
Apenas uma vez,
ela caía
Será que encontrou no meu corpo
um lugar para ficar
e no meu rosto se aproximado ao seu
lado a lado?
Apenas uma vez,
ela sucumbia
Será que se segurou nos meus cabelos
com a força que não tinha
e no meu pedaço de amor
que se perdeu entre suas coxas?
Apenas uma vez,
ela ardia
Será que se agarrou a felicidade
no despertar de sua primavera
e enfrentou a tristeza
escondida nos cantos do seu quarto?
Apenas uma vez,
ela morria
Será que sonhou sozinha
quando ninguém mais vinha
e criava coragem
para mais uma vez pedir?
Por favor,
mais uma vez,
ela queria
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Para matar a saudade
Nascia mais um dia triste
sem que roubasses nada de mim
e vou ficando assim
cansado do tempo que é meu
não se entrelaçando com o seu
silencio de palavras não faladas
memórias das últimas despedidas
distante dos sublimes encontros
desato e não encaixo os meus pontos
um vento traz o seu cheiro
feroz, indolente, rasteiro
da sua ausente presença
e na esperança de te ver
devagar começa o meu viver
e quando o dia raiar querendo a felicidade
já estaremos prontos para matar a saudade
sem que roubasses nada de mim
e vou ficando assim
cansado do tempo que é meu
não se entrelaçando com o seu
silencio de palavras não faladas
memórias das últimas despedidas
distante dos sublimes encontros
desato e não encaixo os meus pontos
um vento traz o seu cheiro
feroz, indolente, rasteiro
da sua ausente presença
e na esperança de te ver
devagar começa o meu viver
e quando o dia raiar querendo a felicidade
já estaremos prontos para matar a saudade
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Na sombra dessas mulheres
Velhas palavras para velhos amigos
Era a solidão de um homem retraído pelo imenso mundo criado pela sombra dessas mulheres que o acompanham. E o samba tocava no fundo com sua melodia querendo falar dessa delicada tristeza que caía sobre esse homem perdido. O salão estava cheio, mas não lotado. E todos escutavam a música com suas latinhas de cerveja na mão e seus pés ainda no chão. Um grupo com seus instrumentos hipnotizantes tocava e cantava com tanta leveza que suas palavras se espalhavam pelo salão. Porém, para um homem, essas palavras tinham um peso que endurecia seus ombros. Ele ficava quieto, bebendo sua cerveja e esperando que ela fizesse efeito logo.
E nesse lugar, a toda hora, passavam para lá e para cá, lindas mulheres de um charme que elas próprias nem conhecem. Ele conversava com seus amigos sobre o que ele queria de tudo isso. Dizia sobre o que ele queria dessas mulheres que trocavam olhares dispersos com ele. Dizia que não conseguiria. Dizia que explodiria. É muita aflição quando as palavras são ditas em vão. Queria dizer que ele estava ali para muito mais do que apenas um homem que entenderia. E continuava a tomar sua cerveja, pois aqui, não tinha mais nada a fazer. Seus amigos o escutavam com muita emoção e queriam fazer alguma coisa para acabar com essa acomodação. Mas sabiam que uma gota de timidez no mar de uma paixão reprimida era suficiente para apagar a chama que com muita dificuldade foi acessa.
E passavam essas mulheres. Queria esticar o braço para apanhá-las, e talvez, trocar duas palavras. Mas seus olhos inertes não atraíam a atenção de nenhuma. No salão, ele ficava passeando pelos grupos de pessoas que conhecia. E tomava mais cerveja para que a tradição não fosse quebrada. Com o passar do tempo, ele ia desistindo de sentir alguma felicidade que assombrava seus sonhos. E na sombra dessas mesmas mulheres, ele ficava cada vez mais encolhido no seu canto. Afastado de tudo. Apenas ficava observando e tentando sorrir para aqueles que se importavam.
E depois de muita cerveja, os pés das pessoas começavam a sair do chão para dançar de alegria. E todos os seus amigos fizeram o mesmo. Ele ficava lá, tentando acompanhá-los. Mexia um pouco os pés no ritmo de uma música qualquer. E se animava um pouco com essa energia desse ritual incompreendido. E os pares começavam a se formar. Ele queria pegar na mão de uma mulher e convidá-la para dançar, tocar na sua cintura e fazer um dois para lá, dois para cá. Mas, ele não sabia dançar. E isso, o fazia criar toda uma impossibilidade de acontecimentos. E ficava apenas observando. Perguntava para suas amigas, mas não recebia qualquer resposta. E dizia que terminaria sozinho. E a solidão era a única que o acolhia e o chamava para dançar.
E todos diziam que ele tinha que agir. Ah... Como ele queria conhecer qualquer mulher que transforme tudo aquilo retido dentro dele mesmo. Conversar com ela sobre qualquer coisa que lhe vinha na cabeça. Fazer com que ela desse pequenos risinhos. E se sentir tão bem que poderia abrir seu coração para ela e poder conhecer os seus traços mais íntimos. Se nenhuma dessas mulheres mostrarem um pouco de amor, como ele poderá conhecer o amor? É na sombra dessas mulheres que seu amor tímido fica escondido.
Era a solidão de um homem retraído pelo imenso mundo criado pela sombra dessas mulheres que o acompanham. E o samba tocava no fundo com sua melodia querendo falar dessa delicada tristeza que caía sobre esse homem perdido. O salão estava cheio, mas não lotado. E todos escutavam a música com suas latinhas de cerveja na mão e seus pés ainda no chão. Um grupo com seus instrumentos hipnotizantes tocava e cantava com tanta leveza que suas palavras se espalhavam pelo salão. Porém, para um homem, essas palavras tinham um peso que endurecia seus ombros. Ele ficava quieto, bebendo sua cerveja e esperando que ela fizesse efeito logo.
E nesse lugar, a toda hora, passavam para lá e para cá, lindas mulheres de um charme que elas próprias nem conhecem. Ele conversava com seus amigos sobre o que ele queria de tudo isso. Dizia sobre o que ele queria dessas mulheres que trocavam olhares dispersos com ele. Dizia que não conseguiria. Dizia que explodiria. É muita aflição quando as palavras são ditas em vão. Queria dizer que ele estava ali para muito mais do que apenas um homem que entenderia. E continuava a tomar sua cerveja, pois aqui, não tinha mais nada a fazer. Seus amigos o escutavam com muita emoção e queriam fazer alguma coisa para acabar com essa acomodação. Mas sabiam que uma gota de timidez no mar de uma paixão reprimida era suficiente para apagar a chama que com muita dificuldade foi acessa.
E passavam essas mulheres. Queria esticar o braço para apanhá-las, e talvez, trocar duas palavras. Mas seus olhos inertes não atraíam a atenção de nenhuma. No salão, ele ficava passeando pelos grupos de pessoas que conhecia. E tomava mais cerveja para que a tradição não fosse quebrada. Com o passar do tempo, ele ia desistindo de sentir alguma felicidade que assombrava seus sonhos. E na sombra dessas mesmas mulheres, ele ficava cada vez mais encolhido no seu canto. Afastado de tudo. Apenas ficava observando e tentando sorrir para aqueles que se importavam.
E depois de muita cerveja, os pés das pessoas começavam a sair do chão para dançar de alegria. E todos os seus amigos fizeram o mesmo. Ele ficava lá, tentando acompanhá-los. Mexia um pouco os pés no ritmo de uma música qualquer. E se animava um pouco com essa energia desse ritual incompreendido. E os pares começavam a se formar. Ele queria pegar na mão de uma mulher e convidá-la para dançar, tocar na sua cintura e fazer um dois para lá, dois para cá. Mas, ele não sabia dançar. E isso, o fazia criar toda uma impossibilidade de acontecimentos. E ficava apenas observando. Perguntava para suas amigas, mas não recebia qualquer resposta. E dizia que terminaria sozinho. E a solidão era a única que o acolhia e o chamava para dançar.
E todos diziam que ele tinha que agir. Ah... Como ele queria conhecer qualquer mulher que transforme tudo aquilo retido dentro dele mesmo. Conversar com ela sobre qualquer coisa que lhe vinha na cabeça. Fazer com que ela desse pequenos risinhos. E se sentir tão bem que poderia abrir seu coração para ela e poder conhecer os seus traços mais íntimos. Se nenhuma dessas mulheres mostrarem um pouco de amor, como ele poderá conhecer o amor? É na sombra dessas mulheres que seu amor tímido fica escondido.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
A cor da chibata
Do pai. Do filho. Do Espírito Santo. Amém. Aprendera que deveria fazer o sinal da cruz quando Jesus aparecia crucificado. E lá estava ele, pendurado em cima da grande porta de madeira da pequena Igreja já idosa. Caminhava com passos lentos e pesados, com o corpo fatigado e músculos machucados por um trabalho exaustivo, porém se vangloriava por conseguir escapar dele por apenas alguns minutos, sumindo pela mata adentro. Cumprimentou o padre, beijando a sua mão em sinal de respeito para com a religião. Esgueirou-se pelos cantos e entrou na floresta com idéia de que iria descansar um pouco antes que alguém percebesse a sua ausência, pois essa sua pobre displicência seria tratada com severa disciplina. Tocava nas árvores paradas, pois apesar de caladas, elas acordavam junto com o dia. Pisava no chão fofo com os pés encardidos, doloridos, e pensou que já estava na hora de escolher uma árvore, encostar suas costas nela e descansar, todavia escutou, não muito longe, o canto das águas de um rio que caminhava para desaguar no mar, como ele, ou talvez, apenas descansar de sua travessia. De surto, uma energia foi oferecida, e ele a usou para seguir os rastros das ondas de um rio que ele nunca vira. Chegou cantando a mesma música que as águas, que ouvira há algum tempo, da boca de seu mundo, um lugar muito distante.
Seus olhos se assustaram e se arregalaram com a visão de uma mulher, totalmente nua, se banhando nas águas que deveriam ser só dele. Sinhá tomava o seu banho da tarde, pois sua pele não acostumada com o calor do sol, não poderia deixar de ser refrescada a cada gota de suor. Seu corpo de neve derretia e preenchia espaços vazios do rio, empurrava pedras, e ditava o ritmo da correnteza, em sintonia, com harmonia, e da agonia do prazer que ele queria apenas para ele, exaltava o seu próprio corpo feito de terra fértil e febril, onde qualquer semente tímida germinaria, dando frutos doces e flores amargas. E como ele tremia da candura conquistada que violava o cego desejo de seus olhos que no céu encontravam o mar em uma noite quente de verão, e na lua que iluminava tudo ao redor, e faltava coragem para tocá-la com a mão machucada, calejada e ferida pela matéria-prima que o criou. Escondeu o rosto com medo de que ela pudesse corresponder ao olhar mágico que o enfeitiçou, como contavam as velhas lendas que conhecera por saber o seu lugar no mundo. Ela saiu de sua aquarela invisível, deixando as águas reclamarem sua volta, e o percebeu encolhido atrás da mata, com um sorriso o hipnotizou, fazendo com que ele não sentisse saudade de onde veio. O capataz observando toda a cena, agarrou o seu braço com força, derrubando-o com violência, desferindo alguns golpes, e arrastando as suas sobras , o levou embora.
O cheiro, uma mistura de odores fortes, inquebráveis e indômitos de um fedor difícil de descrever por palavras tão futuras, espalhavam-se pelos quatros cantos da casa grande (que fora construída para que o vento frio de um horizonte em chamas pudesse refrescar a mente dos visionários da fortuna), penetrando pelas rachaduras das paredes, nos cantos obscuros e nos quartos fechados. Um perfume mestiço que vinham daqueles que não estavam aqui, nem a liberdade de se ver num pedaço destruído de espelho, atravessava todos os salões e avançava sorrateiro para as narinas do senhor de engenho que cuspia no chão e pensava de onde vinha esse cheiro ruim, tórrida lembrança lhe escapa a mente e suspira pelo milagre de respirar um ar limpo, cercado por milhares de hectares de terra. Caminhos tortos acertados por sua bengala, caminhava para ver o negocio crescer, e somente parava quando enxergasse o seu horizonte (sem fim) construído por suas mãos. Nessa hora, o capataz e a sinhá, se apresentavam e tudo o que aconteceu virava mito. Sabendo de tudo, confiando nos valores (que somente os iguais a ele possuíam) que carrega e que por teimosia de gente velha deveria ser apreendida pelas carnes frágeis de jovens sem razão e sem experiência para conhecer as coisas como elas são. Seu rosto cheio de rugas crescidas com o mundo e sua expressão ranzinza dominava todas as ações rebeldes e controlavam as emoções surgidas do ventre da mãe que abandona sua casa. E sua mão poderosa ensinou o ódio cravado nas entranhas de seus olhos mortais, quando, da súbita raiva, espancou sua filha, que com os olhos inchados se rendia a promessa de apenas chorar pela sua cor.
Com o inferno nas veias, os três foram para o espetáculo da noite. O escravo ia ser castigado. O padre estava presente, com seu olhar indiferente e seus braços cruzados, para garantir que a paixão de cristo fosse realizada aos olhos do senhor. Ordenaram para que a batucada se calasse e que todos estivessem presentes. O escravo pecador já estava preparado, amarrado ao tronco e com as costas vulneráveis. O senhor de engenho pediu a atenção de todos e disse as antigas palavras guardadas na cova de um homem com uma história sem alma, enterradas no profundo solo negro de um cemitério sem memória. Ele (o escravo) sem brilho olhava para estrelas do céu e implorava que levassem o sofrimento imposto por aqueles pés presos ao chão duro de suas carcaças podres e nobres. A rainha da atração, ela (a sinhá), recebeu a sua oferenda, a chibata do capataz. O silêncio se fez presente para que a normalidade se tornasse real e que somente os gritos pudessem ser escutados. No mesmo grito ausente de uma chibata manchada de sangue vermelho puro, nenhum dos dois conseguiu mais aguentar, ela chorava pelo amor, e ele chorava pela dor.
Seus olhos se assustaram e se arregalaram com a visão de uma mulher, totalmente nua, se banhando nas águas que deveriam ser só dele. Sinhá tomava o seu banho da tarde, pois sua pele não acostumada com o calor do sol, não poderia deixar de ser refrescada a cada gota de suor. Seu corpo de neve derretia e preenchia espaços vazios do rio, empurrava pedras, e ditava o ritmo da correnteza, em sintonia, com harmonia, e da agonia do prazer que ele queria apenas para ele, exaltava o seu próprio corpo feito de terra fértil e febril, onde qualquer semente tímida germinaria, dando frutos doces e flores amargas. E como ele tremia da candura conquistada que violava o cego desejo de seus olhos que no céu encontravam o mar em uma noite quente de verão, e na lua que iluminava tudo ao redor, e faltava coragem para tocá-la com a mão machucada, calejada e ferida pela matéria-prima que o criou. Escondeu o rosto com medo de que ela pudesse corresponder ao olhar mágico que o enfeitiçou, como contavam as velhas lendas que conhecera por saber o seu lugar no mundo. Ela saiu de sua aquarela invisível, deixando as águas reclamarem sua volta, e o percebeu encolhido atrás da mata, com um sorriso o hipnotizou, fazendo com que ele não sentisse saudade de onde veio. O capataz observando toda a cena, agarrou o seu braço com força, derrubando-o com violência, desferindo alguns golpes, e arrastando as suas sobras , o levou embora.
O cheiro, uma mistura de odores fortes, inquebráveis e indômitos de um fedor difícil de descrever por palavras tão futuras, espalhavam-se pelos quatros cantos da casa grande (que fora construída para que o vento frio de um horizonte em chamas pudesse refrescar a mente dos visionários da fortuna), penetrando pelas rachaduras das paredes, nos cantos obscuros e nos quartos fechados. Um perfume mestiço que vinham daqueles que não estavam aqui, nem a liberdade de se ver num pedaço destruído de espelho, atravessava todos os salões e avançava sorrateiro para as narinas do senhor de engenho que cuspia no chão e pensava de onde vinha esse cheiro ruim, tórrida lembrança lhe escapa a mente e suspira pelo milagre de respirar um ar limpo, cercado por milhares de hectares de terra. Caminhos tortos acertados por sua bengala, caminhava para ver o negocio crescer, e somente parava quando enxergasse o seu horizonte (sem fim) construído por suas mãos. Nessa hora, o capataz e a sinhá, se apresentavam e tudo o que aconteceu virava mito. Sabendo de tudo, confiando nos valores (que somente os iguais a ele possuíam) que carrega e que por teimosia de gente velha deveria ser apreendida pelas carnes frágeis de jovens sem razão e sem experiência para conhecer as coisas como elas são. Seu rosto cheio de rugas crescidas com o mundo e sua expressão ranzinza dominava todas as ações rebeldes e controlavam as emoções surgidas do ventre da mãe que abandona sua casa. E sua mão poderosa ensinou o ódio cravado nas entranhas de seus olhos mortais, quando, da súbita raiva, espancou sua filha, que com os olhos inchados se rendia a promessa de apenas chorar pela sua cor.
Com o inferno nas veias, os três foram para o espetáculo da noite. O escravo ia ser castigado. O padre estava presente, com seu olhar indiferente e seus braços cruzados, para garantir que a paixão de cristo fosse realizada aos olhos do senhor. Ordenaram para que a batucada se calasse e que todos estivessem presentes. O escravo pecador já estava preparado, amarrado ao tronco e com as costas vulneráveis. O senhor de engenho pediu a atenção de todos e disse as antigas palavras guardadas na cova de um homem com uma história sem alma, enterradas no profundo solo negro de um cemitério sem memória. Ele (o escravo) sem brilho olhava para estrelas do céu e implorava que levassem o sofrimento imposto por aqueles pés presos ao chão duro de suas carcaças podres e nobres. A rainha da atração, ela (a sinhá), recebeu a sua oferenda, a chibata do capataz. O silêncio se fez presente para que a normalidade se tornasse real e que somente os gritos pudessem ser escutados. No mesmo grito ausente de uma chibata manchada de sangue vermelho puro, nenhum dos dois conseguiu mais aguentar, ela chorava pelo amor, e ele chorava pela dor.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Cinema
sei que as horas passam
até pareceu que elas pararam
quando você disse
que queria viver um amor de cinema
e no escurinho do cinema
sonhos são jogados na tela
e eu me entrego aos braços dela
ensaimos nossas cenas imporvisadas
atuamos entre beijos e mancadas
vamos sem direção
com a mesma intenção
se encontrando nos achados
pegos no ato do nosso crime
e de olhos fechados
esquecemos o final do filme
até pareceu que elas pararam
quando você disse
que queria viver um amor de cinema
e no escurinho do cinema
sonhos são jogados na tela
e eu me entrego aos braços dela
ensaimos nossas cenas imporvisadas
atuamos entre beijos e mancadas
vamos sem direção
com a mesma intenção
se encontrando nos achados
pegos no ato do nosso crime
e de olhos fechados
esquecemos o final do filme
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