segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Juras

são essas eternas juras de amor
lamentos de seu sorriso a despertar
canções compostas por um sonhador
que diz
palavras escritas com pó de giz
e você
querendo todas elas
cores de nossa aquarela
querendo qualquer uma
para não sobrar nenhuma
para as feridas das juras de dor

são essas eternas juras de amor
momentos de uma boca a te beijar
emoções perdidas de um cantor
que canta
a vida que ainda encanta
e você
querendo toda essa confusão
para fugir da sua solidão
querendo apenas a rendição
das juras de um magoado coração

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Minha querida

Sonhe com a vida, querida
com a minha flor caída entre seus dentes
um suspiro doce que ainda sentes
que o pecado dos nossos incostantes caminhos
vive no perdão dos nossos indecentes carinhos

Fantasie com a vida, querida
com minhas palavras amassadas e jogadas
molhadas no mar onde flutua a nossa jangada
que uma pitada de ternura dá sabor aos nossos atos
na tempestade agonizante e nua da vida dos astros

Beijo da mulher aranha

um beijo da mulher aranha
teia aprisionando perdidas emoções
arranca, espanca, arranha
armadilha para desavisados corações

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Sombras de um artista

revistas recortadas, palavras do poeta
não agradam aos ouvidos da prostituta
e o louco sobe o muro do hospício
e se equilibra com apenas uma mão

deus e o diabo disputam a dançarina
para ver quem vai tirar sua calcinha
e do lado de fora do céu
dois amantes ainda tentam despertar

solidão a maltratar os olhos
dessas meninas de convento
que glorificam um homem só
implorando o seu perdão

o noivo na ponte querendo ver anjos
ele quer voar para deixar o mundo
depois de ter sido deixado no altar
pela mulher que nunca amou

o enforcado está sobre os olhos de todos
condenado pela nossa comunidade
escorre lágrimas de arrependimento
por não ter dado um último beijo nela

permanece o vazio nesse imenso jardim
nunca encontrei com a jasmim
se eu chamá-la de flor
será que ela aparecerá na minha ilusão?

Vi tudo o que não devia
Escutei tudo o que não devia
Disse tudo o que não devia
Não devia... o que não devia?

são sombras desfiguradas do artista
transformadas no seu mundo de autista
esperando ansiosas e tímidas por alguém
a dizer que sente o que não devia também

Disritmia de um coração

Isso são horas, coração? A noite se apresenta com seu espetáculo de escuridão para me chamar e acender a sua chama, coração. Eu apenas queria dormir um sono pesado, sonhar com tudo que não está aqui, e não acordar tão cedo de lá. Folgado coração, passeia a vontade pela minha casa aberta aos ventos de outros lugares. Vagueio pela minha moradia sem rumo, tentando acalmar esse palpitante coração. Ele veio para me atormentar e não me deixar fugir para cama, mas eu insisto mesmo assim e deito. Fecho os olhos para esquecer, mas o agitado coração, mais uma batida, dentro desse peito apertado quer aparecer, enquanto isso, rolo de um lado para outro, querendo encontrar uma posição de vantagem, porém ele já sabe os meus movimentos e minhas estratégias para acalmá-lo, e não hesitante me joga para fora da cama e abro os olhos furiosos de minha rendição. Para que mais uma batida? Não vai me deixar descansar? Para que mais uma dança com a esperança, coração?
Aos poucos, ele vai destruindo o meu senso de razão, e caio nos seus diferentes sentidos contraditórios, não sei se é o que ele quer, ou se é o que eu quero, mais uma batida, desfigurado, descontrolado, coração. Inquieto e desnorteado, caminho para a janela e observo a noite que novamente clama pela minha presença. Apelo para um cigarro, como se ele fosse resolver todos os meus problemas, e digo, por favor, pare coração. Minhas súplicas são cortadas por mais algumas batidas, que lentamente vão me deixando louco. Coração, o que quer de mim? Já não posso te dar mais nada. Só quero a paz que você não traz. Não desiste de me conquistar com seus encantos de um olhar transtornado sobre a vida. Coração, coração, veja as coisas como elas são. Ele vem me tomar pela mão que treme sem parar, sacudindo meu corpo petrificado pela noção de não querer ir com ele, com mais uma batida dissimulada, preso ao caos, vou definhando e ficando a mercê da sua própria mão, quando finalmente não existe mais cigarro.
Olha... uma cigana desconstruindo o seu acampamento para satisfazer sua característica nômade. Vá coração! Vá embora com ela! Vá com ela sumir por esse mundo. O que fazer de um coração em transformação? Olha... as crianças dando gargalhadas das brincadeiras de um torto e manco palhaço que está com rosto marcado e pintado para divertir. Vá coração! Vá com ele coração! Vá buscar alguns sorrisos dessas bocas sérias. O que fazer de um coração de circo? Olha... os olhos cheio de clareza daquela mulher apaixonada e a delicadeza de seu sorriso cheio de água correndo mágoas. Vá com ela coração! Vá se entregar a outro coração. O que fazer de um coração de paixão? Será que ninguém quer saber os segredos entre as batidas de seu coração? Será que ninguém quer entender as disritmias de seu coração? Ninguém lhe quer, coração, nem mesmo o seu dono lhe quer, coração.
Está na hora de parar, coração. Chegou a hora de escolher um único horizonte e seguir apenas nessa direção, será melhor para mim e para você, coração. Não desperdice essa chance de entrar nos eixos do mundo, para ingressar nas engrenagens da mesma máquina que construiu todas as nossas peças, não se pode enganar por tanto tempo a si mesmo, coração. Triste coração solitário que quer ser livre da desgraça, cachaça aos goles da agonia de um desesperado coração. Sem vergonha, coração. Veste a sua fantasia mais pesada para brincar em um carnaval que já acabou. Tolo coração. Sobe as cortinas do seu palco e se apresenta para o público, cena sem interação, ator falso, personagem recluso, de uma trágica comédia que ele não se importa de representar. Está na hora de parar, coração, eu te aviso como amigo.
Olha... os passos de um moribundo desengonçado, bêbado de suas andanças cansadas. Vá com ele coração! Vá andar bêbado de sua crença! O que fazer de um coração sem chão? Olha... as palavras que voam por trás dos prédios de um poeta sem perna. Vá com ele coração! Vá dizer palavras que ficarão! O que fazer de um coração amordaçado? Olha... aquela dançarina que se machucou, e agora chora se apertando contra a parede. Vá com ela coração! Vá dançar com as lágrimas! O que fazer de um coração em pranto? Será que esses corações batem no mesmo ritmo que seu coração? Será que eles escutam as batidas de seus corações? Será, coração?
Ilusão... velha conhecida do coração. Chora coração, disfarça coração. Vou te proteger quando você encontrar com ela, te abraçando até explodir em mil cartas marcadas. Está na hora de parar coração. Está na hora de ir embora, me escute só por um momento, é para o seu próprio bem. Aceite meu conselho, pois lhe dou por pura convicção, e não preciso nem de sua gratidão. Errado coração. Não consegue perceber o caminho certo e sempre escorrega para o outro lado. Natural coração. Não encontra a raiz de sua árvore, pois já alcançou os galhos mais altos. Teimoso coração. Tapa os ouvidos, a boca e os olhos, porém escuta as canções, vê o espelho e fala sobre suas emoções. Porque, coração? Porque sempre que tento te deixar pelo caminho, você não me abandona e ainda fica para me mostrar alguma coisa a mais com mais uma batida parecida com o amor?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Choro

nosso choro abalado
sentido e calado
é choro que se chora só
é choro do que se vê
que tudo se foi
e nada voltou

nosso choro cansado
arrastado e suado
é choro de quem deu um nó
é choro de cada mulher
que partiu
e me deixou

Esse choro é chorinho
sem nenhum carinho
de alguma rosa a chegar
para enfim me consolar
e quem chora esse choro
molhado dos perigos da dor
quer apenas o acalanto do amor
de quem nunca passou

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O leve peso da vida

Eu apenas quero que você me diga como ser feliz. Nada acontece como você diz. Parece que o tempo está passando, talvez já passou, e agora? Queria que alguém me olhasse e não revirasse os olhos em outras direções diferentes e que meus olhos transbordassem a paixão e o desejo do meu corpo sensível a contatos extremos. Será que alguém vai querer tocar na minha mão aquecida cuidadosamente no bolso do meu casaco? Será que alguém vai notar a minha existência se extinguindo na lua cheia que desaparece entre as nuvens esquecidas da noite? Não queria palavras fingidas, porém tampouco atrevidas, dirigidas a mim pela indiferença de conhecer o mundo vasto por trás delas. Acho que já não consigo dizer sobre o desinteresse das expressões presas por rostos que não amanhecem comigo. Já não consigo viver o que não vai acontecer. As músicas são feitas para você, e não para mim. A vida é muito pesada para se viver sozinho. Diga como amenizar a tristeza cravada pelo ar, quando vejo com fulgor a beleza do mar? É preciso uma imensa força estranha para derrubar ventos reclusos, melancólicos por natureza, retraídos pelo seu penar, e me pergunto se alguém também conhece essa força através das próprias forças, fossas nos lugares inóspitos, escuras, ecos de um canto solitário. Você tem o encanto surpreendente que tanto eu busco nas pequenas coisas que você faz, mas não consigo te acompanhar, nem mesmo chegar até onde você quer me conduzir, através de seus belos acasos de um dia qualquer. A minha memória é revirada para trazer alguma alegria de um tempo de outrora, porém não vejo ninguém que você prometeu trazer para mim, para me fazer esquecer do próprio tempo, do meu próprio ser. Estou cansado de mim. Por todos os lados que eu perceba a vida, só vejo a mim. E fico assim, sonhando que eu sou feliz por sua causa, sonhando que acredito em tudo que você diz, sonhando que você um dia vai voltar mesmo que nunca tenha ido, sonhando que você vai me fazer mudar de vida com a sua. E nessa hora que sinto mais falta de alguma coisa que ainda não sei, alguma coisa que eu deixei, alguma coisa que eu não permiti, algo que minha compreensão inocente quer.
Tenho reunidas comigo várias frases de efeito, daquelas que as pessoas colocam na vitrine de suas vidas, mas nenhuma delas tem algum efeito sobre mim. A vida ri de nós. Nessa guerra, corremos na mesma direção, esmagando ossos quebrados, procurando um abrigo nuclear, e esperamos pacientes o silêncio ensurdecedor de uma bomba que torcemos que caía sobre nossos espíritos frágeis. Porque me fizeste ser traído por tudo o que vivi? É triste perceber a miséria dos nossos olhos mortos pelo medo de poder ver o que não era visto antes. E que tem coragem de dizer? Toda a poesia é para você, e não para mim. A vida é muito leve para se agarrar. Queria sentir suas nuances e balanços que você mostra com sua forma tímida e se desmancha despedaçada sobre o meu solo. O sofrimento tortura nossas pequenas esperanças, e você gosta de me enganar com seu jeito de quem veio para cuidar. Assim, eu durmo querendo morrer, mas acordo querendo viver. E a vida também se desespera, arranca cabelos, caí nos seus desenganos, enlouquece com o doce sabor de seu sorriso querendo ser reconhecido por quem também tem a vida, ainda desconhecida, e com uma vontade de se conhecer por um raio de sol que se esconde por trás das nuvens brancas com formas incompreensíveis a olho nu. E se alguém se aproximar, será que não veio para machucar? Não adianta lutar, é uma batalha perdida para si mesmo. Eu só queria uma cor, qualquer uma, desbotada, porém radiante na sua luz refletida pelo lago parado e calmo, de águas já explorados por outros corações. E vivo (vivendo) preso pela presença de alguém traduzir o sofrimento com gestos delicados, para a vida se libertar em pequenas gotas de chuva, que molham a tristeza de alguém que ofereça um pouco de sua vida carregada de nuvens cheias de lágrimas querendo cair sobre essa terra ainda viva.