sei que as horas passam
até pareceu que elas pararam
quando você disse
que queria viver um amor de cinema
e no escurinho do cinema
sonhos são jogados na tela
e eu me entrego aos braços dela
ensaimos nossas cenas imporvisadas
atuamos entre beijos e mancadas
vamos sem direção
com a mesma intenção
se encontrando nos achados
pegos no ato do nosso crime
e de olhos fechados
esquecemos o final do filme
terça-feira, 19 de julho de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Em chafariz
sorriso de quem quer ser feliz
anseio da natureza do desejo
uma flor se abre em chafariz
anseio da natureza do desejo
uma flor se abre em chafariz
quinta-feira, 16 de junho de 2011
Enquanto ela dormia...
Não acorde menina
senão a vida desatina
sonhe comigo bem devarinho
teu sono é um eterno momento de carinho
senão a vida desatina
sonhe comigo bem devarinho
teu sono é um eterno momento de carinho
segunda-feira, 13 de junho de 2011
O lugar da solidão
Os buracos da calçada eram meu único empecilho. Desviava deles com a destreza de um atleta. É nessas ruas que me chamam que caminho com rumo traçado, olhando para as coisas sem remorso e entusiasmo. Hoje é dia do não. Não quero poesia. Não quero arte. Não quero expressão. Não quero liberdade. Não quero porra nenhuma. Quero apenas calar-me. Encontrar o meu próprio silêncio. Para isso não adianta tapar a minha boca, pois nós conseguimos falar através de outros meios que ultrapassam nossas próprias barreiras, sim, nós somos cretinos. Como não dá para parar os movimentos da vida, procuro um jeito de conseguir, pelo menos, um pouco de calmaria, entrando no botequim mais próximo.
Todos me observam, velhos freqüentadores, erguendo seus copos com cerveja ou qualquer outra coisa, intrigados pela minha peculiar presença. Estou bem arrumado, pois apesar de ainda ser quase noite, hoje é sexta-feira. Acomodo-me em um banco acolchoado, chamo o dono do bar e peço uma cerveja. Sorridente ele traz a garrafa e o copo recentemente lavado e os coloca sobre o balcão, e talvez intrigado pelo meu rosto indiferente, me pergunta o que eu estou fazendo ali. Secamente respondo que aqui é o lugar das pessoas solitárias. Problemas com mulheres, amor ou dinheiro? Diz num tom sério. Não tenho nada disso. Alguém o chama da outra ponta do balcão. Encho o meu copo vazio e tomo o primeiro gole. Logo ele volta. Não se pode ficar assim sendo tão jovem. Agora diz num tom mais descontraído. Talvez, respondo sem querer continuar a conversa. Sorrindo ele se vai. Sem nada para fazer, fico olhando as garrafas, uma ao lado da outra, em prateleiras na parede. Lembranças indesejadas invadem minha mente, e vou apagando-as com mais goles garganta adentro. Vejo as pessoas também sentadas, ninguém olha para o lado, e eu fico aliviado. Com o braço levantado, chamo o dono do bar, que parece um português caricaturado, com o seu bigode gordo e sua pança enorme. Outra cerveja? Faço o sinal de positivo com a mão. Levanto e vou ao banheiro. Mijo e vou direto para o ar livre fumar um cigarro. Fumo tão rápido que não percebo. Volto para o meu lugar e o português parece que me espera. Vá viver rapaz! Diz animado. Onde? O copo cheio encontra a minha boca. Sem a resposta vai atender outro cliente.
Para a minha surpresa (mentira, sempre acontece isso), um bêbado aparece, e sem eu jamais entender o motivo, começa a conversar comigo como se fossemos amigos há muito tempo. Conta-me sobre sua vida, e dali tira suas idéias e teorias sobre as coisas. Apenas concordo com tudo. Chega a me dar conselhos calorosos e totalmente convictos (deveria existir uma ciência sobre isso), alegrando-se da sua sabedoria, ele sorri prepotente. Sem tentar contradizê-lo ou a mim, aceito tudo de bom grado. Procuro o dono do bar e lhe faço um sinal para mais uma cerveja. O bêbado continua a falar e acaba contando alguma história biográfica, e eu acabo me comovendo, apesar de querer tapar os ouvidos. Depois diz que tem que ir embora e se despede de todos. Nada muda. Presto atenção nas garrafas na parede novamente.
Penso que sei o que estou fazendo. Continuo bebendo. Tudo é muito tedioso, mas acho que devo aguentar. Pego um cigarro do maço e de novo vou fumar. Já está de noite. Porém dessa vez não procuro a lua. Não quero falar com ela. Então observo a rua. Distraio-me com qualquer coisa. Fecho as cortinas e me divirto com a ausência de aplausos. Depois espero que os aplausos ecoem, mas o espetáculo ainda não acabou. Como sou tolo. Meus únicos inimigos são as palavras que me traem e assim, começo a dizer. Encaminho-me para o balcão e engulo a minha cerveja na esperança de me calar. Sou um tolo mesmo. Olho para as horas e percebo que tenho que ir embora. Grito pelo dono do botequim que aparece com o mesmo sorriso e peço a conta, ele diz o número, eu lhe dou o dinheiro e me despeço. Já saindo, quase de fininho, vejo uma mulher sentada em uma cadeira de plástico que ficava na calçada esburacada, e a única coisa que posso mostrar a ela é o meu olhar contendo a dor compartilhada por todos que aqui estão. Mas ela sorri. Mais uma vez um tolo. Para um coração canalha, a solidão é a paz que não se quer.
Todos me observam, velhos freqüentadores, erguendo seus copos com cerveja ou qualquer outra coisa, intrigados pela minha peculiar presença. Estou bem arrumado, pois apesar de ainda ser quase noite, hoje é sexta-feira. Acomodo-me em um banco acolchoado, chamo o dono do bar e peço uma cerveja. Sorridente ele traz a garrafa e o copo recentemente lavado e os coloca sobre o balcão, e talvez intrigado pelo meu rosto indiferente, me pergunta o que eu estou fazendo ali. Secamente respondo que aqui é o lugar das pessoas solitárias. Problemas com mulheres, amor ou dinheiro? Diz num tom sério. Não tenho nada disso. Alguém o chama da outra ponta do balcão. Encho o meu copo vazio e tomo o primeiro gole. Logo ele volta. Não se pode ficar assim sendo tão jovem. Agora diz num tom mais descontraído. Talvez, respondo sem querer continuar a conversa. Sorrindo ele se vai. Sem nada para fazer, fico olhando as garrafas, uma ao lado da outra, em prateleiras na parede. Lembranças indesejadas invadem minha mente, e vou apagando-as com mais goles garganta adentro. Vejo as pessoas também sentadas, ninguém olha para o lado, e eu fico aliviado. Com o braço levantado, chamo o dono do bar, que parece um português caricaturado, com o seu bigode gordo e sua pança enorme. Outra cerveja? Faço o sinal de positivo com a mão. Levanto e vou ao banheiro. Mijo e vou direto para o ar livre fumar um cigarro. Fumo tão rápido que não percebo. Volto para o meu lugar e o português parece que me espera. Vá viver rapaz! Diz animado. Onde? O copo cheio encontra a minha boca. Sem a resposta vai atender outro cliente.
Para a minha surpresa (mentira, sempre acontece isso), um bêbado aparece, e sem eu jamais entender o motivo, começa a conversar comigo como se fossemos amigos há muito tempo. Conta-me sobre sua vida, e dali tira suas idéias e teorias sobre as coisas. Apenas concordo com tudo. Chega a me dar conselhos calorosos e totalmente convictos (deveria existir uma ciência sobre isso), alegrando-se da sua sabedoria, ele sorri prepotente. Sem tentar contradizê-lo ou a mim, aceito tudo de bom grado. Procuro o dono do bar e lhe faço um sinal para mais uma cerveja. O bêbado continua a falar e acaba contando alguma história biográfica, e eu acabo me comovendo, apesar de querer tapar os ouvidos. Depois diz que tem que ir embora e se despede de todos. Nada muda. Presto atenção nas garrafas na parede novamente.
Penso que sei o que estou fazendo. Continuo bebendo. Tudo é muito tedioso, mas acho que devo aguentar. Pego um cigarro do maço e de novo vou fumar. Já está de noite. Porém dessa vez não procuro a lua. Não quero falar com ela. Então observo a rua. Distraio-me com qualquer coisa. Fecho as cortinas e me divirto com a ausência de aplausos. Depois espero que os aplausos ecoem, mas o espetáculo ainda não acabou. Como sou tolo. Meus únicos inimigos são as palavras que me traem e assim, começo a dizer. Encaminho-me para o balcão e engulo a minha cerveja na esperança de me calar. Sou um tolo mesmo. Olho para as horas e percebo que tenho que ir embora. Grito pelo dono do botequim que aparece com o mesmo sorriso e peço a conta, ele diz o número, eu lhe dou o dinheiro e me despeço. Já saindo, quase de fininho, vejo uma mulher sentada em uma cadeira de plástico que ficava na calçada esburacada, e a única coisa que posso mostrar a ela é o meu olhar contendo a dor compartilhada por todos que aqui estão. Mas ela sorri. Mais uma vez um tolo. Para um coração canalha, a solidão é a paz que não se quer.
quarta-feira, 8 de junho de 2011
Vinheira dos sonhos
um gole de vinho
mais um golinho
um novo mundo descoberto
eu desapareço por completo
mais um golinho
um novo mundo descoberto
eu desapareço por completo
quarta-feira, 4 de maio de 2011
A mariposa
Ela queria nascer de novo. Presa no seu casulo de pensamentos sufocantes que formavam uma crosta mais forte do que ela poderia imaginar, tentava se desprender dessas amarras sombrias, balançando-se para os lados, agitando-se a cada passo de uma batida do seu pequeno coração que aos poucos ia lhe dando a crença de que poderia ser feliz nesse mundo. Tinha a expectativa de que a vida fosse mais do que poderia prever, uma passagem de um lugar mágico, um sonho doido que a fazia sorrir por debaixo de sua proteção temporária, uma doce visita ao paraíso, imaginava cada elemento presente nesse mundo bordado por seus caprichos, excitando-se a cada respiração mais intensa, querendo desesperadamente abrir as asas e conseguir a liberdade de voar para onde quisesse, para onde pudesse, para onde fosse. E ela seria a mais linda, com as cores mais vibrantes que ao tocar os raios solares brilhariam para além do horizonte, todos ficariam admirados pela sua beleza natural e se emocionariam quando a encontrassem nua de seus preconceitos, passando pela sua própria avenida solitária. Na ingenuidade do seu viver, a mariposa pensava que era uma borboleta.
E foi assim que ela veio ao mundo, abrindo o limitante casulo de suas ações e esperançosa sobre o caminhar pela vida que estava tão perto de alcançar, com sua força de romper barreiras indispensáveis para seu crescimento. Percebeu-se diante de tudo ao mesmo tempo, ficando assustada no início e excitada logo depois, conhecendo a primeira folha em que pousaria, era verde e leve, sentiu sua textura e sorriu para o que via. Tudo era uma novidade, por isso, foi examinando cada parte daquele miúdo mundo e se encantando com todas as diferentes sensações que descobria. Querendo mostrar suas cores vistosas foi de encontro ao sol, que estava radiante e imponente, distribuindo seus raios para todos os lados, conectando-se com todas as coisas, vivas e mortas, de um calor que parecia penetrar na alma, mesmo sem querer. De asas abertas, encontrou-se com ele no meio do céu. Suas cores escuras não refletiram sua luz, e o calor a penetrou com uma violência arrasadora que ela poderia gritar de dor, sofreu com as primeiras queimaduras que recebia em seu breve espírito aventureiro e caiu, lentamente, tentando bater suas asas e sair do inferno, procurando uma sombra, um lugar onde não sentisse mais aquilo.
A sombra de uma árvore a acolheu, lentamente deitou no chão sobre a sua proteção e ficou na mesma posição, inerte em sua mente por alguns instantes. De seu abrigo, um tédio lhe invadia e seu ser não conseguia controlar a agitação de seu corpo que se debatia querendo sair dali, querendo exercitar seus músculos cheios de energia. A única coisa que ela precisava para sair daquele lugar era a coragem, e assim o fez, encarando o sol mais uma vez. Seguia por cima da floresta a olhando com afeto, sem se importar com o calor forte que vinha do norte, resolveu ir para o sul buscar algum aspecto grandioso de um azul, de qualquer azul. Afastando-se de sua floresta onde deu seus primeiros passos, encontrou um campo aberto, aparentemente sem fim e sorriu de sua alegria infantil, inocente sem precedente, uma novidade de sua verdade, sua visão estendida para o céu percebeu várias borboletas flutuando, jogando suas cores para todos os lados, descendo até as flores espalhadas pelo campo verde e subindo até o infinito. Aproximou-se com uma excitação à flor da pele, querendo e não chegar, com medo de não agradar, com receio de seu belo olhar, porém, assim o fez. Da sua chegada, ela viu uma flor azul, quieta entre várias outras ao seu lado, e pediu a sua permissão para pousar, não obtendo nenhuma resposta, delicadamente encostou seus pés nas pétalas de sua surpresa, e contemplou seu azul, se era o azul que ela buscava? Não sabia, mas aquele azul era da cor de sua felicidade, e se perdeu dentro dela, sem tempo, sem espaço, a beijou para que não se esquecesse, uniu-se a ela sem cerimônia como se fosse a última coisa a se fazer no mundo. Logo depois, algumas borboletas vieram e lhe perguntaram o que estava fazendo, respondeu que estava sendo feliz, retrucaram dizendo que uma mariposa não podia estar naquele lugar e que ela teria que partir. Abriu uma fenda de confusão em sua cabeça, pois ela era uma borboleta e essa era uma das únicas certezas que tinha, por isso tentou argumentar com as outras, mas suas palavras não foram ouvidas e ela foi expulsa de seu paraíso.
Apenas conheci um lugar e foi para lá que ela voltou. A floresta estava do jeito como ela deixou, e o sol estava mais fraco por causa do fim do dia. Adentro-se nela, passando pelas árvores, cambaleando meio bêbada, triste pelos recentes acontecimentos e se questionando se tudo aquilo que passou valia uma lágrima de seu choro, flutuou exausta e deixou seu corpo mole cair até a beira de um lago. Viu seu reflexo no espelho da água, contornos de uma mariposa apareceram para ela, e aquela imagem feia a fez tremer e se encolher querendo um novo casulo, gritando para si mesmo que queria nascer de novo, de nascer como uma linda borboleta para viver o seu desejo de azul. Pela solidão da noite e o cansaço do dia, ela adormeceu abraçando o seu próprio corpo, protegendo-o da maldita imagem que vira, sem forças para um último sentimento e temendo que água pudesse mostrar mais do que ela poderia aguentar. Na fortaleza do seu ser, ela não seria uma mariposa.
No dia seguinte, acordou com um animo diferente, e mesmo estando traumatizada e melancólica, decidiu não ficar lamentando e parada em sua inércia tímida, projetou suas asas para alto e voou, com medo e sem astúcia, encontrou o céu novamente, escolheu sua direção contrária e seguiu em busca de outro azul, de qualquer azul. Durante sua viagem, observou uma massa cinzenta ao longe, e por causa de sua incontrolável curiosidade, viu-se obrigada a chegar mais perto. Era uma cidade e seus olhos se animaram com uma nova possibilidade. Desviava dos carros parados em algum engarrafamento, admirou-se das pessoas andando pelas ruas em um único passo, sempre na mesma nota e de uma precisão robótica, encantou-se por suas cores cinzas, brancas, marrons e pretas parecidas com as que viu no espelho da água de sua própria face. Passou entre fumaças de escape, cigarro e fábricas, banhou-se das bebidas amargas e fortes, espantou-se com as construções gigantes do centro da cidade, inquietou-se com o barulho ensurdecedor que enlouquecia seus ouvidos e riu da diferente vida que se levava por aqui.
Com os olhos atentos, percebeu uma janela aberta e um rapaz fumando atrás dela. Ele estaca usando uma camisa azul e seu rosto despreocupado e sereno representava uma aspecto menos perturbador. Aproximou-se com o mesmo instinto que carregara até ali, hipnotizada pelo azul, sem saber se aquele azul era o que ela procurava. O rapaz se assustou e recuou e gritou para sua irmã, dizendo que havia uma mariposa no recinto. Ela tentava pousar naquele azul, talvez o azul de sua felicidade e uma paz aparecia toda vez em que pensava que estava perto demais. O rapaz continuava a desviar, e a repeli-la com as mãos, nervoso, gritava cada vez mais quando sua irmã apareceu. A mariposa pousava em algum lugar e depois se lançava para o seu destino, impune e contente, confusa, mas certa de sua iniciativa. A irmã percebeu a situação e partiu para dentro da casa. Ele dizia em voz alta para a mariposa não se aproximar ou para ir embora, porém ela não escutava e continuava a abrir as asas e ir de encontro aquele azul, apenas isso e sua determinação não a deixava descansar. A irmã voltou com um inseticida e quando a mariposa fazia uma nova tentativa foi atropelada por seu jato venenoso, obrigando-a a pousar em qualquer canto. Cada vez mais, ela se sentia fraca e o veneno corria pelo o seu corpo, embriagando seus sentidos e descontrolando seus pensamentos até que ela caiu no chão. O rapaz e sua irmã se animaram com sua vitória e sucesso e foram embora deixando-a sozinha. A mariposa apenas olhou o seu azul cada vez mais distante e lembrou de todos os azuis que perseguiu, sorriu para o que vivera e fechou os olhos para o amanhã.
E foi assim que ela veio ao mundo, abrindo o limitante casulo de suas ações e esperançosa sobre o caminhar pela vida que estava tão perto de alcançar, com sua força de romper barreiras indispensáveis para seu crescimento. Percebeu-se diante de tudo ao mesmo tempo, ficando assustada no início e excitada logo depois, conhecendo a primeira folha em que pousaria, era verde e leve, sentiu sua textura e sorriu para o que via. Tudo era uma novidade, por isso, foi examinando cada parte daquele miúdo mundo e se encantando com todas as diferentes sensações que descobria. Querendo mostrar suas cores vistosas foi de encontro ao sol, que estava radiante e imponente, distribuindo seus raios para todos os lados, conectando-se com todas as coisas, vivas e mortas, de um calor que parecia penetrar na alma, mesmo sem querer. De asas abertas, encontrou-se com ele no meio do céu. Suas cores escuras não refletiram sua luz, e o calor a penetrou com uma violência arrasadora que ela poderia gritar de dor, sofreu com as primeiras queimaduras que recebia em seu breve espírito aventureiro e caiu, lentamente, tentando bater suas asas e sair do inferno, procurando uma sombra, um lugar onde não sentisse mais aquilo.
A sombra de uma árvore a acolheu, lentamente deitou no chão sobre a sua proteção e ficou na mesma posição, inerte em sua mente por alguns instantes. De seu abrigo, um tédio lhe invadia e seu ser não conseguia controlar a agitação de seu corpo que se debatia querendo sair dali, querendo exercitar seus músculos cheios de energia. A única coisa que ela precisava para sair daquele lugar era a coragem, e assim o fez, encarando o sol mais uma vez. Seguia por cima da floresta a olhando com afeto, sem se importar com o calor forte que vinha do norte, resolveu ir para o sul buscar algum aspecto grandioso de um azul, de qualquer azul. Afastando-se de sua floresta onde deu seus primeiros passos, encontrou um campo aberto, aparentemente sem fim e sorriu de sua alegria infantil, inocente sem precedente, uma novidade de sua verdade, sua visão estendida para o céu percebeu várias borboletas flutuando, jogando suas cores para todos os lados, descendo até as flores espalhadas pelo campo verde e subindo até o infinito. Aproximou-se com uma excitação à flor da pele, querendo e não chegar, com medo de não agradar, com receio de seu belo olhar, porém, assim o fez. Da sua chegada, ela viu uma flor azul, quieta entre várias outras ao seu lado, e pediu a sua permissão para pousar, não obtendo nenhuma resposta, delicadamente encostou seus pés nas pétalas de sua surpresa, e contemplou seu azul, se era o azul que ela buscava? Não sabia, mas aquele azul era da cor de sua felicidade, e se perdeu dentro dela, sem tempo, sem espaço, a beijou para que não se esquecesse, uniu-se a ela sem cerimônia como se fosse a última coisa a se fazer no mundo. Logo depois, algumas borboletas vieram e lhe perguntaram o que estava fazendo, respondeu que estava sendo feliz, retrucaram dizendo que uma mariposa não podia estar naquele lugar e que ela teria que partir. Abriu uma fenda de confusão em sua cabeça, pois ela era uma borboleta e essa era uma das únicas certezas que tinha, por isso tentou argumentar com as outras, mas suas palavras não foram ouvidas e ela foi expulsa de seu paraíso.
Apenas conheci um lugar e foi para lá que ela voltou. A floresta estava do jeito como ela deixou, e o sol estava mais fraco por causa do fim do dia. Adentro-se nela, passando pelas árvores, cambaleando meio bêbada, triste pelos recentes acontecimentos e se questionando se tudo aquilo que passou valia uma lágrima de seu choro, flutuou exausta e deixou seu corpo mole cair até a beira de um lago. Viu seu reflexo no espelho da água, contornos de uma mariposa apareceram para ela, e aquela imagem feia a fez tremer e se encolher querendo um novo casulo, gritando para si mesmo que queria nascer de novo, de nascer como uma linda borboleta para viver o seu desejo de azul. Pela solidão da noite e o cansaço do dia, ela adormeceu abraçando o seu próprio corpo, protegendo-o da maldita imagem que vira, sem forças para um último sentimento e temendo que água pudesse mostrar mais do que ela poderia aguentar. Na fortaleza do seu ser, ela não seria uma mariposa.
No dia seguinte, acordou com um animo diferente, e mesmo estando traumatizada e melancólica, decidiu não ficar lamentando e parada em sua inércia tímida, projetou suas asas para alto e voou, com medo e sem astúcia, encontrou o céu novamente, escolheu sua direção contrária e seguiu em busca de outro azul, de qualquer azul. Durante sua viagem, observou uma massa cinzenta ao longe, e por causa de sua incontrolável curiosidade, viu-se obrigada a chegar mais perto. Era uma cidade e seus olhos se animaram com uma nova possibilidade. Desviava dos carros parados em algum engarrafamento, admirou-se das pessoas andando pelas ruas em um único passo, sempre na mesma nota e de uma precisão robótica, encantou-se por suas cores cinzas, brancas, marrons e pretas parecidas com as que viu no espelho da água de sua própria face. Passou entre fumaças de escape, cigarro e fábricas, banhou-se das bebidas amargas e fortes, espantou-se com as construções gigantes do centro da cidade, inquietou-se com o barulho ensurdecedor que enlouquecia seus ouvidos e riu da diferente vida que se levava por aqui.
Com os olhos atentos, percebeu uma janela aberta e um rapaz fumando atrás dela. Ele estaca usando uma camisa azul e seu rosto despreocupado e sereno representava uma aspecto menos perturbador. Aproximou-se com o mesmo instinto que carregara até ali, hipnotizada pelo azul, sem saber se aquele azul era o que ela procurava. O rapaz se assustou e recuou e gritou para sua irmã, dizendo que havia uma mariposa no recinto. Ela tentava pousar naquele azul, talvez o azul de sua felicidade e uma paz aparecia toda vez em que pensava que estava perto demais. O rapaz continuava a desviar, e a repeli-la com as mãos, nervoso, gritava cada vez mais quando sua irmã apareceu. A mariposa pousava em algum lugar e depois se lançava para o seu destino, impune e contente, confusa, mas certa de sua iniciativa. A irmã percebeu a situação e partiu para dentro da casa. Ele dizia em voz alta para a mariposa não se aproximar ou para ir embora, porém ela não escutava e continuava a abrir as asas e ir de encontro aquele azul, apenas isso e sua determinação não a deixava descansar. A irmã voltou com um inseticida e quando a mariposa fazia uma nova tentativa foi atropelada por seu jato venenoso, obrigando-a a pousar em qualquer canto. Cada vez mais, ela se sentia fraca e o veneno corria pelo o seu corpo, embriagando seus sentidos e descontrolando seus pensamentos até que ela caiu no chão. O rapaz e sua irmã se animaram com sua vitória e sucesso e foram embora deixando-a sozinha. A mariposa apenas olhou o seu azul cada vez mais distante e lembrou de todos os azuis que perseguiu, sorriu para o que vivera e fechou os olhos para o amanhã.
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